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title: "A lenda de Gambrinus: O &#8216;rei da cerveja&#8217; que fez um pacto com o diabo e o enganou"
description: "Dois homens foram propostos principalmente como os principais inspiradores do surgimento de Gambrinus: Jan Primus (João I), Duque de Brabante, e Jean Sans Peur (João Sem Medo), Duque da Borgonha."
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date: 2024-10-27
modified: 2026-06-11
author: "Carlos Uhart M."
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categories: ["Cultura"]
tags: ["Bélgica", "Cultura", "História"]
type: post
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# A lenda de Gambrinus: O &#8216;rei da cerveja&#8217; que fez um pacto com o diabo e o enganou

Embora a fonte da lenda de Gambrinus seja incerta, parece ter se originado nos Países Baixos da Europa Ocidental durante a Idade Média (século XIII).

!(https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2017/02/Jan_Primus_Gambrinus_FB.jpg)*Gambrinus, o rei da cerveja*

Dois homens foram propostos principalmente como inspiradores principais do surgimento de Gambrinus: Jan Primus (João I), Duque de Brabante, e Jean Sans Peur (João Sem Medo), Duque da Borgonha.

Várias teorias foram apresentadas sobre a etimologia latina do termo Gambrinus. Poderia ser considerado como uma evolução lexical da conjunção do nome Jan Primus na inevitável fusão e evolução de seus componentes como uma palavra composta, Cambrinus ou Gambrinus.

Também se destaca sua possível origem na palavra Cambarus (copeiro), por sua vez derivada do termo céltico Camba (caldo para produzir cerveja), ou na contração dos vocábulos da expressão Ganeae Birrinus (que bebe em uma taverna).

## Jan Primus de Brabante

Uma das origens mais prováveis da lenda de Gambrinus baseia-se na vida e obras de Jan Primus (1251-1294), duque de Brabante, um personagem muito reconhecido em seus domínios como bem-aparentado, gentil, amante das mulheres e grande benfeitor, devido principalmente às medidas adotadas para amenizar a fome em suas terras a partir do (https://www.thebeertimes.com/la-estacion-espacial-internacional-estudiara-cultivar-cebada-espacio/).

!(https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2017/02/Jan_Primus.jpg)*Jan Primus de Brabante*

Jan Primus era de fato bem conhecido por seu amor à cerveja e chegou a ser membro honorário do grêmio dos cervejeiros em Bruxelas.

Brabante era um estado do Império Romano que abrangia Bruxelas, Alemanha e Bélgica, muito próspero devido à produção de cerveja.

Foi em Bruxelas justamente que Jan Primus estabeleceu as bases para a indústria cervejeira europeia, permitindo que os prefeitos de Bruxelas concedessem licenças para a (https://www.thebeertimes.com/pt-br/o-que-e-uma-cerveja-e-como-e-produzida-definicao-ingredientes-e-processos-basicos/).

Jan Primus é considerado também como quem introduziu a cerveja de malte na Europa Central e quem teria iniciado o costume social da proposição do brinde.

O escritor belga Victor Coremans destacou as semelhanças entre a aparência de Jan Primus em seu túmulo e os rostos de Gambrinus em algumas ilustrações antigas.

## Jean Sans Peur da Borgonha

Mais tarde, nascido quase 80 anos após a morte de Jan Primus de Brabante, surge como herdeiro da lenda popular e cervejeira de seu predecessor, com quem chegará a se confundir: João I, Duque da Borgonha (1371-1419), mais conhecido como Jean Sans Peur (João Sem Medo), em cujo ducado, a curta distância de Brabante, também se produzia cerveja.

!(https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2017/02/Jan_Sans_Peur_Borgona.jpg)*Jean Sans Peur da Borgonha*

A Jean Sans Peur é atribuída (https://www.thebeertimes.com/lupulo-una-revolucion-que-comenzo-en-la-edad-media/) no condado de Flandres, onde, assim como em muitos outros territórios europeus, se produzia cerveja com uma (https://www.thebeertimes.com/gruit-la-cerveza-antes-del-lupulo/).

O porquê de João ter instituído o lúpulo na cerveja flamenga não está documentado, mas ele viveu durante um tempo em que o (https://www.thebeertimes.com/10-cosas-que-deberias-saber-acerca-del-lupulo/) estava legalizado em jurisdições próximas.

Diz-se também que ele instituiu uma ordem de mérito chamada “Ordo Lupuli” (“Ordem do Lúpulo”).

## Gambrivius na “teoria” alemã

Em seus Anais Opus Magnum da Baviera, o historiador alemão Johannes Aventinus escreveu que a lenda de Gambrinus se baseia em um mítico rei germânico chamado Gambrivius, a quem os deuses teriam ensinado a produzir cerveja.

Na crônica de Aventinus, Gambrinus teria nascido em 1730 a.C. — no meio da dinastia XIII do Egito — e teria sido amante de Ísis, irmã de Osíris, que, segundo algumas lendas mais antigas, teria inventado a cerveja.

É por essa associação com os deuses que Gambrinus teria aprendido a ciência da produção de cerveja.

## Lendas do folclore europeu

Segundo uma das tantas lendas populares que mascaram sua figura histórica, Gambrinus teve um enfrentamento com o diabo e, daquela refrega, combinaram um desafio no qual apostaram que Gambrinus não seria capaz de produzir um vinho sem uvas, o que teria dado origem à primeira cerveja.

Conta-se que Gambrinus viveu 300 anos ingerindo enormes quantidades de cerveja, como único sustento alimentício, e que, antes de morrer, declarou:

> Se eu tivesse (https://www.thebeertimes.com/aprende-disfrutar-beber-cerveza-solo/), teria vivido ainda mais.

Outra das lendas relata que, nos alvores do século XII, os cervejeiros de Bruxelas deliberavam sobre qual homem forte e valente mereceria a honra de ser seu líder.

Desta forma, organizaram uma competição na qual se deveria mover um grande barril de cerveja.

!(https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2017/02/Gambrinus_Brindis.jpg)*Gambrinus é a origem do brinde social*

Entre todos os que participaram da competição, encontramos novamente o Duque de Brabante, Jan Primus, que era um homem de grande força e considerável intelecto, que, com evidente alegria, testemunhou os inúteis esforços do resto dos competidores para mover o barril de cerveja.

Quando chegou sua vez, ordenou a um de seus servos colocar uma torneira na boca do barril. Jan deitou-se sob o barril, abriu a torneira e bebeu até que acabou toda a cerveja.

Uma vez vazio, levantou o barril facilmente e o levou até a meta sem maior esforço.

Diante de comportamento tão inteligente, os cervejeiros de Bruxelas nomearam Jan Primus como governante honorário de seu grêmio.

Com os séculos, a lenda continuou e transformou o astuto duque de Brabante em Gambrinus, conhecido por seu incondicional amor a uma (https://www.thebeertimes.com/la-cerveza-vaso-vaso-seidel-stein-mug/), que chegava a beber cerveja por três dias seguidos, caneca após caneca, sem parar.

Segundo outra ficção medieval, indica-se que, após a feroz batalha de Worringen (com a qual anexou o ducado de Limburgo), Jan Primus convidou todos os seus nobres aliados para celebrar a vitória.

Durante as celebrações, Jan se aproximou de um pátio interno onde seus soldados e seus servos festejavam e decidiu fazer um discurso àqueles jovens valentes.

Jan subiu ao mais alto de uma montanha de barris e sentou-se a cavalo sobre o mais alto. Levantando sua caneca espumante, chamou a atenção dos presentes e propôs um brinde por aquelas terras e a saúde de seu povo.

Desta forma teria se originado o costume social da proposição do brinde em (https://www.thebeertimes.com/stout-day-celebracion/).

## A lenda de Gambrinus

Em sua antologia de 1868, intitulada (https://amzn.to/3jpFjN8) (Contos de um Bebedor de Cerveja), Charles Deulin, escritor, jornalista e crítico de teatro francês, escreveu uma pequena história chamada “Cambrinus, Roi de la Bière” (Cambrinus, Rei da Cerveja), na qual “Cambrinus” faz um trato com o diabo.

Nesta versão da lenda, Gambrinus, um bem-aparentado, mas pobre aprendiz de vidraceiro, se apaixona por Flandrine, a filha de seu chefe. Mas, ao declarar seu amor, ela o rejeita, dizendo:

> Não antes de você se tornar um homem com status.

Com o coração partido, Gambrinus deixa sua cidade numa tentativa de esquecer Flandrine, enquanto viajava com seu violino, instrumento para o qual tinha um grande talento.

Muito em breve ele se torna conhecido em toda a Bélgica e Holanda, então, quando as pessoas de sua cidade natal ouvem falar deste famoso músico, muito orgulhosas, suplicam que ele retorne.

É assim que Gambrinus retorna e dá seu primeiro concerto. Sua apresentação é incrível, até que ele novamente avista Flandrine na multidão e se engasga.

Sua música se torna horrível e a multidão enlouquece ao ponto de provocar graves distúrbios.

!(https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2017/02/Gambrinus_Rey_de_la_Cerveza.jpg)*Ilustração de Gambrinus*

Gambrinus é declarado responsável e levado à prisão. É ali que ele conclui que sua vida não vale a pena e, ferido de amor, decide tirar a própria vida.

Pouco antes de se enforcar, o diabo em pessoa aparece a ele vestido de caçador e lhe propõe um trato. Em troca de sua alma, por 30 anos, ele obteria um dom que poderia ajudá-lo a obter o amor de Flandrine.

E se este dom não funcionasse, o diabo lhe daria um remédio para se esquecer de sua amada para sempre.

Gambrinus aceita renunciar a tudo se Flandrine se apaixonar por ele, mas o diabo lhe diz que o amor é a única coisa que está além de seu controle, mas que ele pode basicamente fazer qualquer outra coisa.

> Então me dê algo para esquecê-la.

Pedido ao qual o diabo aceita, assinando um contrato por sua alma.

No dia seguinte, ao sair da prisão, Gambrinus sente um forte desejo de apostar. Esta nova paixão, com a ajuda do diabo, o torna um homem muito rico, mas ainda assim não consegue esquecer Flandrine.

Ele decide voltar mais uma vez a Flandrine para declarar seu amor, deixando-a ver que agora é um homem muito rico, mas ela o rejeita novamente:

> Não me importa se você tem dinheiro ou não. Você ainda não é ninguém. Volte quando for duque ou rei.

Gambrinus volta a deixar a cidade muito deprimido e se encontra com o “caçador” pela segunda vez para explicar que seu amor pelo jogo não havia conseguido fazê-lo esquecer Flandrine e pergunta se ele poderia fazer qualquer outra coisa por ele.

> Você vê aquelas plantas ali? Vou lhe mostrar como usá-las em uma bebida chamada cerveja.

O diabo ensina desta vez a Gambrinus a construir uma cervejaria, a produzir cerveja e lhe entrega sementes para cultivar lúpulo.

O diabo também lhe entrega a capacidade de que todo aquele que ouvir sua maravilhosa música não consiga parar de dançar.

Gambrinus volta à sua cidade natal, cultiva lúpulo, constrói sua cervejaria e pratica em seu carrilhão.

Quando já terminou de preparar sua primeira bebida, chama novamente todos os habitantes de seu povoado que o haviam humilhado em seu último concerto à praça do mercado para (https://www.thebeertimes.com/temperaturas-de-servicio-adecuadas-para-cada-tipo-de-cerveza/).

No início, nenhum deles gosta desta nova bebida amarga e zombam dele novamente. É nesse momento que Gambrinus começa a tocar seu carrilhão e automaticamente todo mundo começa a dançar, mantendo-os assim por várias horas, até que todos tenham muita sede.

Quando a música finalmente para, eles voltam para a cerveja e não conseguem parar de bebê-la, desfrutando-a ainda mais a cada gole. Gambrinus e sua cerveja são um sucesso, e a notícia se espalha rapidamente.

## Gambrinus, como rei da cerveja

A nova bebida se espalha por todo o país, e o rei dos Países Baixos até o recompensa com um título: Duque de Brabante.

Embora o próprio Gambrinus prefira usar o título não oficial de Rei da Cerveja, ele passa seus dias bebendo e organizando festas.

Finalmente, Gambrinus não é apenas rico, mas também um homem que circula nos mais altos círculos da sociedade.

Flandrine, que secretamente havia chegado a amar Gambrinus, mas era orgulhosa demais para admitir, espera que o duque volte pela terceira vez para pedir sua mão, mas como Gambrinus não a visita novamente, é ela quem decide ir até ele.

Uma vez em frente à Gambrinus, Flandrine estende sua mão para ele, mas ele não a reconhece, acreditando que ela é apenas mais alguém que quer provar sua cerveja. Ele lhe entrega um copo e se vira sem lhe dar mais atenção.

A cerveja finalmente havia conseguido que Gambrinus esquecesse Flandrine, como ele sempre desejou.

O tempo passa e, durante 30 anos, Gambrinus vive a boa vida, mas então o diabo volta para recolher sua alma, conforme haviam combinado.

Quando o vê, o bêbado Duque decide recebê-lo com a música de seu carrilhão, resultando que até mesmo o próprio diabo não consegue resistir a ela e começa a dançar.

Depois de várias horas, o diabo implora a Gambrinus que pare, mesmo que isso signifique quebrar o contrato por sua alma.

É assim que o feliz Gambrinus recupera sua liberdade e entrega ao diabo um barril de cerveja que este termina de um gole, muito irritado, antes de retornar ao inferno, reclamando que estará de volta por sua alma depois que Gambrinus morrer.

O Rei da Cerveja vive quase 100 anos na embriaguez até que finalmente morre e o rumor chega ao inferno.

O diabo acorre ansioso para recolher sua alma, mas, quando chega ao local onde Gambrinus morreu, em seu lugar encontra apenas um barril de cerveja.

É assim que o Diabo finalmente aceita que a alma do Rei da Cerveja nunca será sua.

## Perguntas frequentes (FAQ)

### 1. Qual diferença histórica real existe entre Jan Primus de Brabante e Jean Sans Peur da Borgonha dentro da lenda?

Jan Primus de Brabante e Jean Sans Peur da Borgonha pertencem a épocas e territórios distintos, embora a tradição popular medieval tenha acabado fundindo suas identidades. Jan Primus, que viveu no século XIII, forneceu a base política ao conceder as primeiras licenças comerciais para fabricar cerveja em Bruxelas, além de ser lembrado por sua força física e por promover o cultivo de cevada para combater as fomes. Por outro lado, Jean Sans Peur, nascido quase oitenta anos após a morte do primeiro, entrou para a história por um marco técnico e botânico transcendental: a introdução legal do lúpulo no condado de Flandres para substituir o gruit, uma mistura de ervas que até então dominava a produção europeia.

### 2. Qual é a explicação etimológica mais aceita para a transformação do nome Jan Primus em Gambrinus?

A hipótese linguística mais sólida sugere que o termo Gambrinus é o resultado da evolução lexical e da deformação fonética de Jan Primus ao longo dos séculos na Europa Ocidental. Ao unir o nome próprio Jan com o adjetivo latinizante Primus, a expressão derivou gradualmente em palavras compostas como Cambrinus, facilitada pela pronúncia dos dialetos germânicos e flamengos da época. Existem explicações complementares que vinculam o termo com a palavra latina cambarus, utilizada para designar os copeiros, que, por sua vez, provém da raiz céltica camba, que se referia ao caldo quente empregado nos primeiros processos de fervura de cereais.

### 3. Por que a versão alemã de Johannes Aventinus situa a origem da cerveja no Antigo Egito?

O historiador bávaro Johannes Aventinus tentou conferir um pano de fundo dinástico e divino à tradição cervejeira germânica, conectando-a com a mitologia clássica em sua obra Opus Magnum. Segundo sua crônica, o personagem central não era um nobre medieval, mas um rei antigo chamado Gambrivius, que supostamente viveu por volta do ano 1730 a.C. Aventinus construiu um relato em que este monarca se tornou o consorte da deusa egípcia Ísis, permitindo que as divindades orientais, tradicionalmente associadas com a invenção dos primeiros fermentados de grão no norte da África, lhe transmitissem de maneira direta os segredos da agricultura e da manipulação do lúpulo.

### 4. Qual o papel do lúpulo na estrutura narrativa do pacto com o diabo, segundo Charles Deulin?

Na obra Contes d’un Buveur de Bière, escrita por Charles Deulin em 1868, o lúpulo não é apenas um ingrediente botânico, mas funciona como o elemento mágico e o remédio definitivo que o diabo entrega para resolver o conflito do protagonista. Quando Gambrinus fracassa em sua tentativa de comprar o amor de Flandrine por meio da riqueza do jogo, ele exige um mecanismo absoluto para o esquecimento. A introdução do lúpulo para criar a cerveja simboliza a transição da amargura do desamor para uma bebida que cativa a sociedade, concedendo-lhe finalmente o status de Duque de Brabante e libertando-o da obsessão romântica que o levou à beira do suicídio.

### 5. Qual é o significado cultural do barril de cerveja que substitui o corpo de Gambrinus ao morrer?

O desfecho da lenda francesa, em que o cadáver do Rei da Cerveja se transforma misticamente em um barril de madeira, representa a apoteose folclórica da imortalidade por meio do ofício. Ao não deixar um corpo físico nem uma alma que o diabo possa reclamar para o inferno, o relato estabelece que Gambrinus se fundiu de forma eterna com sua própria criação. Este motivo literário consolida sua figura não como a de um mortal comum, mas como um santo padroeiro pagão dos taberneiros e fabricantes, cujo espírito permanece vivo em cada taverna do norte da Europa por meio do ato social do brinde.

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