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title: "A tabuleta cuneiforme NMC 7962: o recibo de cerveja mais antigo com classificação de qualidade"
description: "Uma tabuleta de argila do período Ur III decifrada em Copenhague registra mais de 120 litros de cerveja distribuídos em dois dias na antiga Mesopotâmia, distinguindo entre cerveja boa e cerveja ordinária. O primeiro documento administrativo conhecido a classificar formalmente a qualidade da cerveja."
url: https://www.thebeertimes.com/pt-br/tabuleta-cuneiforme-nmc-7962-recibo-cerveja-mesopotamia-classificacao/
date: 2026-07-18
modified: 2026-07-19
author: "Carlos Uhart M."
image: https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2026/07/Tablilla-NMC-7962.jpg
categories: ["História"]
tags: ["Arqueología", "Cerveza antigua", "História", "Mesopotamia"]
type: post
lang: pt
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# A tabuleta cuneiforme NMC 7962: o recibo de cerveja mais antigo com classificação de qualidade

![Tabuleta NMC 7962](https://www.thebeertimes.com/wp-content/uploads/2026/07/Tablilla-NMC-7962.jpg)*Tabuleta NMC 7962*

Uma tabuleta de argila do período Ur III decifrada em Copenhague registra a distribuição de mais de 120 litros de cerveja em dois dias consecutivos na antiga Mesopotâmia. A tabuleta NMC 7962, conservada no Museu Nacional da Dinamarca, é o primeiro documento administrativo conhecido a estabelecer formalmente a distinção entre cerveja de qualidade superior e cerveja ordinária, há mais de quatro mil anos.

## O que registra o recibo na tabuleta NMC 7962?

A descoberta provém do projeto Hidden Treasures, uma colaboração entre a Universidade de Copenhague e o Museu Nacional da Dinamarca destinada a analisar e digitalizar textos cuneiformes conservados em coleções que não haviam sido estudadas sistematicamente.

A tabuleta havia sido publicada anteriormente pelo sumerólogo dinamarquês Thorkild Jacobsen, mas foi reexaminada durante o processo de digitalização e sua relevância foi apreciada com maior profundidade.

Troels Pank Arbøll, professor associado de Assiriologia na Universidade de Copenhague e responsável pela análise, explica que documentos desse tipo são registros administrativos típicos do Ur III — tabuletas que serviam para documentar as entregas realizadas por instituições da época.

A NMC 7962 registra dois dias de distribuição. No primeiro dia: 16 litros de cerveja boa e 55 litros de cerveja ordinária. No segundo: 12 litros de cerveja boa e 40 litros de cerveja ordinária.

No total, mais de 120 litros — uma cifra que não corresponde a nenhum consumo doméstico ou celebração privada, mas à logística de uma instituição com recursos significativos.

O documento traz impresso o selo cilíndrico do governador provincial, o que não apenas certifica que passou pelos canais da administração oficial, mas situa a transação no mais alto nível do aparato burocrático mesopotâmico.

O destinatário do registro, ou da própria cerveja, permanece desconhecido, mas o selo deixa claro que essa distribuição era assunto de Estado.

## A distinção entre cerveja boa e cerveja ordinária

O aspecto mais revelador da tabuleta não é o volume, mas a classificação. O fato de uma administração do século XXI antes de Cristo dispor de termos formais para distinguir qualidades de cerveja, aplicá-los em um documento oficial e gerenciá-los por meio de um sistema de registro implica que o mercado cervejeiro mesopotâmico era consideravelmente mais sofisticado do que os registros anteriores haviam permitido documentar.

A diferenciação de qualidade na produção e distribuição de bens não é uma inovação moderna ou medieval. A tabuleta NMC 7962 demonstra que tem mais de quatro milênios de história administrativa documentada.

“Era parte integral da vida urbana.” É assim que Arbøll descreve o papel da cerveja na civilização mesopotâmica.

A afirmação não é retórica; desde a invenção da escrita, no final do quarto milênio antes de Cristo, até o declínio da civilização cuneiforme, a cerveja aparece nos arquivos com a mesma naturalidade que o grão, o gado ou o trabalho.

Era um bem essencial cuja distribuição exigia exatamente o mesmo aparato burocrático que qualquer outro recurso econômico.

Os documentos do Ur III que registram cerveja não são excepcionais; o que é excepcional é que a NMC 7962 tenha sobrevivido com legibilidade suficiente para revelar seu detalhe interno.

## As mulheres na cadeia de produção mesopotâmica

O registro administrativo da NMC 7962 não menciona quem fabricou a cerveja que distribui. Mas a evidência histórica sobre a produção cervejeira do período Ur III é relativamente clara: a fabricação era uma atividade feminina.

As mulheres mesopotâmicas controlavam a produção doméstica de cerveja, e no contexto institucional, as cervejeiras podiam ser trabalhadoras especializadas dentro dos grandes complexos palatinos ou templarários que gerenciavam a economia da época.

O Hino a Ninkasi, o poema sumeriano de 1800 a. C. dedicado à deusa da cerveja, não é apenas um texto religioso: é também uma descrição técnica do processo de fabricação que confirma [o papel da mulher como principal artífice da bebida](https://www.thebeertimes.com/pt-br/a-importancia-das-mulheres-na-historia-da-cerveja/).

A combinação do registro administrativo da NMC 7962 com as evidências iconográficas e literárias do período constrói um quadro coerente. A cerveja mesopotâmica era produzida por mulheres, gerenciada pela administração e consumida coletivamente em contextos institucionais.

## Ingredientes, textura e o sistema do canudo

Arbøll descreve os ingredientes básicos da cerveja mesopotâmica: cevada como base, com variações regionais e de período que podiam incorporar trigo emmer ou xarope de tâmara.

O resultado era uma bebida completamente diferente de qualquer cerveja moderna: turva, sem filtro, com sedimento de grão em suspensão.

A solução técnica adotada pelos bebedores da época, documentada em textos e representações iconográficas, foi o longo canudo oco, que atuava como um canudinho e permitia ingerir o líquido acima do depósito de grão.

As representações de duas pessoas bebendo do mesmo recipiente por meio de longos canudos são uma das imagens mais reconhecíveis da arte mesopotâmica e refletem uma prática cotidiana, não um ritual excepcional.

A estrutura da bebida — fermentada a partir de um pão de cereal chamado bappir, misturado com água e ingredientes aromáticos — foi estável o suficiente para persistir por milênios sem mudanças fundamentais em sua tecnologia de produção.

O que mudou foi a escala, a organização institucional e, como demonstra a NMC 7962, a sofisticação dos sistemas de classificação e distribuição.

## Recriar uma cerveja de 4.000 anos atrás

O interesse acadêmico pela cerveja mesopotâmica não permaneceu no plano teórico. A Universidade de Chicago foi um dos centros mais ativos na tentativa de reconstruir elaborações antigas a partir dos textos disponíveis.

As versões experimentais apontam para uma cerveja de baixa graduação, fermentação espontânea, com notas ácidas e herbáceas muito distantes dos perfis que hoje associamos a qualquer lager ou ale contemporânea.

O exercício tem valor além da curiosidade gastronômica: permite calibrar a leitura dos documentos administrativos como a NMC 7962. Se os pesquisadores conseguem reproduzir um perfil aproximado da bebida que o recibo descreve, a categoria “cerveja boa” adquire conteúdo técnico — não apenas uma distinção de preço ou de procedência institucional, mas potencialmente um reflexo de diferenças reais em ingredientes, processo ou tempo de fermentação.

O Hino a Ninkasi, traduzido por Miguel Civil da Universidade de Chicago a partir de duas tabuletas de argila, já havia fornecido a primeira receita verificável da história cervejeira. A NMC 7962 acrescenta agora a primeira classificação formal de qualidade.

O projeto Hidden Treasures ressalta que [os arquivos museológicos seguem contendo milhares de objetos não estudados](https://www.thebeertimes.com/pt-br/descoberta-franca-ritual-romano-milenar-vinho-cerveja-mortos/).

Cada tabuleta decifrada amplia o mapa do que sabemos sobre as economias do mundo antigo, e a NMC 7962 o faz de forma concreta — colocando nomes, volumes e selo oficial na cerveja bebida pelos habitantes da Mesopotâmia há mais de quatro mil anos.

## Perguntas frequentes

### O que é a tabuleta cuneiforme NMC 7962?

A NMC 7962 é uma tabuleta de argila do período Ur III (aproximadamente 2112–2004 a.C.) conservada no Museu Nacional da Dinamarca. Registra a entrega de mais de 120 litros de cerveja em dois dias consecutivos e distingue explicitamente entre cerveja de qualidade superior e cerveja ordinária. Foi decifrada por pesquisadores da Universidade de Copenhague no âmbito do projeto Hidden Treasures.

### Quanto de cerveja registra o recibo da Mesopotâmia?

A tabuleta registra duas entregas consecutivas: no primeiro dia, 16 litros de cerveja boa e 55 litros de cerveja ordinária; no segundo, 12 litros de cerveja boa e 40 litros de cerveja ordinária. O total ultrapassa 120 litros, uma quantidade que indica distribuição institucional, não consumo doméstico.

### Com o que era feita a cerveja na antiga Mesopotâmia?

A cerveja mesopotâmica era elaborada principalmente com cevada, embora as receitas pudessem incluir trigo emmer ou xarope de tâmara. Era uma bebida turva e sem filtro, razão pela qual os bebedores usavam longos canudos ocos para evitar o sedimento de grão depositado no fundo do recipiente.

### O que é o projeto Hidden Treasures?

Hidden Treasures é uma colaboração entre a Universidade de Copenhague e o Museu Nacional da Dinamarca para analisar, catalogar e digitalizar textos cuneiformes conservados em coleções museológicas que não haviam sido estudados sistematicamente. A tabuleta NMC 7962 foi um de seus achados mais significativos.

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