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Quando pensamos em bebidas alcoólicas japonesas, o sake é sem dúvida a primeira que nos vem à mente, mas apesar de suas origens estrangeiras, hoje a cerveja é sem dúvida a bebida mais popular no Japão.

A história da cerveja no Japão
A história da cerveja no Japão

O Japão é considerado um dos países mais tolerantes em relação ao consumo de álcool: 66% de seus habitantes o consideram moralmente aceitável, em comparação com 46% dos tchecos, 41% dos alemães e 38% dos britânicos.

Hoje, apesar de ter um dos impostos mais altos do mundo, a cerveja é a bebida alcoólica mais produzida e mais vendida no Japão — tudo isso apesar de a produção doméstica ser na prática proibida (bebidas acima de 1% de álcool) e a idade mínima de consumo estar fixada em 20 anos.

No Japão, produzem-se aproximadamente 3,5 bilhões de litros de cerveja por ano, seguidos, com uma diferença bem maior, pelos 500 milhões de litros de Shochu — uma bebida alcoólica destilada de cevada, batata-doce ou arroz — e pelos 425 milhões de litros do tradicional Sake, considerado por muitos um tipo de cerveja propriamente dito, pois é elaborado a partir de arroz fermentado.

História da cerveja no Japão

Acredita-se que a primeira cerveja da história do Japão foi elaborada pelo médico Koumin Kawamoto, que em 1853 produziu cerveja em casa utilizando um manual de fabricação holandês — ela nunca chegou a ser comercializada.

A cerveja foi introduzida no Japão pela primeira vez como uma importação especializada por comerciantes holandeses no século XVII, durante o Período Edo (1600–1868).

Durante esses anos, Hendrik Doeff, o comissário holandês em Dejima (Nagasaki), viu o fornecimento de cerveja proveniente da Europa interrompido pelas guerras napoleônicas, e por isso organizou uma operação local para garantir seu próprio abastecimento, abrindo uma cervejaria para os marinheiros que trabalhavam na rota comercial.

Mas foi apenas no final do século XIX que a produção comercial de cerveja no Japão começou a se desenvolver, coincidindo com a restauração do Período Meiji (1868–1912) — também graças a um imigrante estrangeiro: o americano de origem norueguesa William Copeland (1834–1902), que abriu a Spring Valley Brewery em Yamate, Yokohama, em 1870.

Alguns anos depois, em Osaka, Syozaburo Shibutani tornou-se o primeiro japonês a produzir cerveja de forma comercial, fundando a Osaka Beer Brewing Company. Nessa época, enviou um de seus cervejeiros mais promissores, Hiizu Ikuta, para se especializar na prestigiosa escola da cervejaria Weihenstephan na Alemanha, uma das mais antigas do mundo.

Osaka Beer Brewing Company
Osaka Beer Brewing Company

Ao retornar, Ikuta seria o responsável por desenvolver e lançar no mercado o que é hoje a cerveja emblema do Japão por excelência: a Asahi Beer.

Outras marcas que hoje dominam o mercado japonês também tiveram suas origens nesse período: Kirin e Asahi são igualmente produtos desenvolvidos no final do século XIX.

No início do século XX, a abertura de novas cervejarias foi interrompida pela promulgação de novas leis fiscais em 1901, que supostamente visavam proteger o mercado de cerveja industrial local, mas em condições que ao mesmo tempo impediam a operação de novos negócios menores.

As novas leis passaram a exigir uma produção anual mínima, associada ao pagamento de impostos altíssimos, o que levou muitas operações menores a fechar — tornando praticamente impossível desenvolver qualquer projeto além das cervejarias já estabelecidas.

Durante a década de 1920, empresas japonesas adquiriram grandes quantidades de equipamentos de fabricação de cerveja dos Estados Unidos em consequência da Lei Seca, que havia obrigado centenas de operações americanas a fechar.

No final dos anos 1950, após a Segunda Guerra Mundial, o Japão viveu uma expansão econômica sem precedentes, época em que o consumo de cerveja disparou consideravelmente — impulsionado principalmente pelo consumo adicional das tropas estrangeiras de ocupação.

Nessa mesma época, em 1949, o governo japonês obrigou o grande conglomerado cervejeiro Dai Nipon a se fragmentar, a fim de evitar um monopólio no setor.

Essa cisão logo daria origem às atuais Asahi Breweries e Sapporo Brewery, permitindo que a Kirin alcançasse o primeiro lugar na produção nacional — posição que manteria até bem adentro o ano de 2001.

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O início de uma nova era

Foi apenas em 1994 que o governo japonês decidiu modificar as leis fiscais relacionadas aos volumes de produção de cerveja, possibilitando o funcionamento de operações menores.

Como consequência, o governo decidiu aplicar impostos à produção com base no teor de malte de cevada, estabelecendo quatro categorias para a cerveja:

  1. Mais de 67% de malte de cevada
  2. Entre 50% e 67% de malte de cevada
  3. Entre 25% e 50% de malte de cevada
  4. Menos de 25% de malte de cevada

Como era de se esperar, a cerveja com maior teor de malte de cevada era a mais tributada, razão pela qual as cervejarias começaram a desenvolver receitas com um mínimo de malte.

Cerveja e Happoshu Suntory
Cerveja e Happoshu Suntory

A primeira cerveja desse tipo foi elaborada pela Suntory em 1994 e teve uma ótima recepção no mercado, principalmente pelo seu baixo preço — o que fez com que fosse rapidamente imitada por outros produtores.

Essas cervejas elaboradas com outros cereais não maltados como adjuntos recebem no Japão o nome de Happoshu (発泡酒), algo como “vinho espumante”.

O desenvolvimento da cerveja artesanal japonesa

A primeira cervejaria artesanal a abrir no Japão foi a Echigo Beer, que conseguiu equilibrar a arraigada tendência da cerveja “dry” com técnicas de fabricação artesanal de influência alemã e norte-americana.

Além de Pale Ale e Stout, desenvolveram também uma Lager à base de arroz que conseguiu competir com os maiores players do mercado — uma espécie de cerveja de entrada em seu portfólio.

A Okhotsk Beer também obteve sua licença em 1994 e, embora não seja distribuída globalmente, continua sendo uma cervejaria local muito popular em Hokkaido.

Uma das primeiras cervejarias a conquistar reconhecimento internacional foi a Kiuchi, uma tradicional fábrica de sake que voltou sua atenção para a cerveja em 1996.

Sua marca principal, Hitachino Nest, é conhecida mundialmente, e eles também produzem uma ampla gama de cervejas, incluindo a famosa White Ale.

Hitachino Nest White Ale
Hitachino Nest White Ale

Outra cervejaria japonesa muito popular — especialmente no mercado local — é a Yona Yona Ale, produzida pela Yo-Ho Brewing Company, frequentemente comparada à Sierra Nevada ou à Sam Adams japonesa, e que também mantém torneiras dedicadas para outras cervejarias artesanais.

Essa comparação se estabelece graças à viagem que o cervejeiro japonês Toshi Ishii fez aos Estados Unidos para aperfeiçoar seu ofício, durante a qual passou três anos trabalhando na renomada Stone Brewing, na Califórnia.

Ao retornar, Toshi desenvolveu um programa voltado à cerveja em barril e foi gradualmente difundindo seus novos conhecimentos para outros cervejeiros e bares por todo o Japão, fundando uma nova cervejaria em 2010, chamada Ishii Brewing Company, em Guam.

Outro cervejeiro premiado com conexões internacionais é Bryan Baird, que cofundou a Baird Brewing Company com sua esposa japonesa Sayuri no ano 2000.

No início funcionavam como uma pequena cervejaria, mas hoje contam com vários pubs, duas instalações de produção e reconhecimento internacional.

Com foco na educação do consumidor e na produção de cerveja de qualidade, Baird tem sido um ator importante para elevar o perfil da cerveja artesanal no Japão.

O mercado artesanal atual

Hoje, estima-se que o número de cervejarias artesanais japonesas supere as 200 operações, oferecendo cervejas que vão desde estilos belgas tradicionais até outros completamente locais, com uma fatia de mercado que chega a 2%. Muitas delas estão financeiramente vinculadas a grandes produtores de sake, redes de restaurantes, hotéis e resorts.

As conexões globais dos cervejeiros japoneses permaneceram fortes ao longo dos anos — como ficou evidente após o devastador terremoto e tsunami no Japão em 2011, quando as cervejarias Ishii e Baird, junto com seus antigos colegas da Stone, desenvolveram uma cerveja colaborativa em benefício dos afetados.

A cerveja resultante foi uma Japanese Green Tea IPA, que se revelou uma excelente introdução à criatividade dos cervejeiros artesanais japoneses e um lembrete de que muitos na comunidade global de cerveja artesanal estão focados em fazer o bem fazendo bem — criando produtos únicos com um significado que vai além do puramente comercial.

Referências

  1. Japón y la cerveza del sol naciente
  2. A Brief History of Japanese Beer
  3. Historia de la cerveza en Japón
  4. History of the Japanese Beer Industry

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Author Carlos Uhart M.

Fundador e diretor da The Beer Times™. Certified Beer Server Cicerone©, Beer Judge BJCP e sommelier de cerveja. Autor de 'Guia Prático para Degustar Cerveja', 'Culinária e Coquetelaria com Cerveja' e outros quatro livros sobre harmonização e cultura cervejeira.