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O liso é uma medida tradicional (250 a 255 cc) utilizada para cerveja tirada sem pasteurizar, popularizada na cidade de Santa Fe, Argentina.

Liso santafesino
Liso santafesino

Essa forma de beber cerveja, que começou na década de 1930, é servida em um copo estilo stange (liso, sem textura), geralmente utilizado para cervejas estilo pilsen.

Com os anos, esse costume cervejeiro santafesino se estendeu ao restante da região e permanece vivo até os dias atuais.

Patrimônio cultural imaterial

Atualmente, o liso santafesino é patrimônio imaterial da cidade de Santa Fe e faz parte indelével da gastronomia local e regional.

Em 11 de dezembro de 2014, o liso foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Fe, por iniciativa da vereadora Adriana “Chuchi” Molina, no Honorável Conselho Municipal de Santa Fe.

A Ordenança N° 12.159 foi a primeira a legislar sobre uma tradição, em consonância com o estabelecido pela Convenção da Unesco.

Em 2023, deputados provinciais apresentaram um projeto de lei para declarar o liso como patrimônio cultural imaterial da província de Santa Fe.

Festas tradicionais em Santa Fe

Desde 2019, por iniciativa do cervejeiro e organizador de eventos Gabriel Andruszczyszyn, celebra-se o Dia do Liso Santafesino na segunda sexta-feira de dezembro.

As comemorações acontecem em diversos estabelecimentos gastronômicos e cervejeiros que mantêm viva a tradição na cidade.

Em cada edição, é descerrada uma placa comemorativa com a assinatura do artista santafesino especializado em fileteado porteño, Oscar “Peco” Pecorari.

Dessa forma, já foram colocadas placas no Club Sarmiento, Los Primos Bar Restó, Don Marcos e Alte Deutscher Santa Fe (Sociedad Alemana Santa Fe), que se constituem como espaços de referência para tomar um liso como patrimônio cultural santafesino.

A data foi fixada pela Ordenança N° 12.866 em novembro de 2022 pelo Honorável Conselho Municipal de Santa Fe.

Quem foi Otto Schneider?

As tradições orais indicam que o liso foi popularizado pelo empresário e mestre cervejeiro Otto Schneider, imigrante alemão radicado na cidade de Santa Fe desde 1911 e importante referência nas cervejarias Bieckert, San Carlos, Santa Fe e Schneider, sendo esta última de sua propriedade.

Segundo o meticuloso costume de Schneider, era de sua grande preferência desfrutar de cerveja tirada em um copo liso, sem marcas nem relevos, para poder fazer uma melhor observação e análise.

A forma do copo stange permite conservar e reter uma melhor espuma (para que o oxigênio não altere o produto) e favorece um adequado condicionamento do frio.

Tradição cervejeira

No final do século XIX, a cidade de Santa Fe (além de Esperanza, Humboldt, San Carlos, Romang, Franck, San Jerónimo, Cavour e Grütly, entre outras localidades e colônias da região) experimentou um incremento populacional com a chegada de imigrantes suíços e alemães que trouxeram consigo uma forte tradição cervejeira.

No entanto, antes da primeira onda imigratória e em meados do século XIX, chegavam à cidade de Santa Fe cervejas importadas envasadas em garrafas de barro branco da Noruega, Bavária, Grã-Bretanha e Alemanha.

Além disso, no final do século (segundo registros de 1894), na capital da província de Santa Fe havia quatro ateliês cervejeiros, enquanto a demanda do mercado interno era suprida com produtos provenientes de Rosário e Buenos Aires, entre outras localidades.

Os primeiros passos da indústria

A indústria cervejeira em Santa Fe começa a dar seus primeiros passos no início do século XX. Em 26 de setembro de 1911, reuniram-se acionistas e parte do conselho da “Sociedad Anónima Fábrica de Cerveza y Hielo Santa Fe”, e foi Germán Nagel quem conduziu os inícios do projeto que teve Otto Schneider como mestre cervejeiro.

Em 1912 foram feitos os primeiros testes de produção da cerveja Santa Fe e, em curto prazo, Carlos Funkel foi designado à frente da gerência da empresa que, na década de 1910, foi atravessada por dificuldades no abastecimento de matérias-primas (em sua maioria importadas) pelo contexto internacional marcado pela Primeira Guerra Mundial e a inflação.

No início da década de 1920 evidencia-se uma recuperação econômica com o auge de bares e confeitarias que ofereciam cerveja tirada de barril, e a Cerveza Santa Fe passa a exportar para países vizinhos.

Na década de 1930, quando surge o liso santafesino como modo de beber cerveja, abrem-se os primeiros jardins cervejeiros, gerenciados por coletividades, por proprietários de procedência germânica, por clubes de bairro ou anexos às associações de moradores.

Por que se chama “liso”?

Em 1931 é constituída a SA Cervecería Schneider Santa Fe, que expede seu primeiro barril em 1933. Nesse mesmo ano abre o Recreo Schneider, jardim cervejeiro da cervejaria homônima que funcionou até os anos 1980 como estabelecimento gastronômico concessionado à família Achleitner. Anos antes, em 1979, a empresa fundada por Otto havia sido absorvida pela Cervecería Santa Fe.

Segundo Eduardo M. Revuelta, ex-diretor geral da cervejaria Schneider, o termo liso foi cunhado por Otto Schneider que, em suas visitas aos tradicionais bares da cidade, pedia — com um espanhol limitado — que lhe servissem a cerveja em um copo liso de capacidade menor do que a das canecas usuais.

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Author Carlos Uhart M.

Fundador e diretor da The Beer Times™. Certified Beer Server Cicerone©, Beer Judge BJCP e sommelier de cerveja. Autor de 'Guia Prático para Degustar Cerveja', 'Culinária e Coquetelaria com Cerveja' e outros quatro livros sobre harmonização e cultura cervejeira.