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A cena desconcerta boa parte dos visitantes estrangeiros. Dezenas de pessoas aspiram pelo nariz um pó fino desde as primeiras horas do dia e o passam entre amigos à vista de todos, em meio a trajes típicos e garçonetes capazes de carregar vinte canecas de um litro de uma só vez.

O pó branco que circula de mesa em mesa durante a Oktoberfest de Munique não é cocaína. É conhecido como Wiesn Koks e se trata de uma mistura de lactose, dextrose e mentol sem tabaco nem entorpecentes, herdeira direta do rapé bávaro.
A Oktoberfest começa no primeiro sábado depois de 15 de setembro, com a abertura do primeiro barril pelas mãos do prefeito de Munique. A edição de 2026, de 19 de setembro a 4 de outubro, bateu seu recorde com cerca de 7,4 milhões de visitantes e 6,7 milhões de canecas de um litro de Festbier, segundo o balanço provisório da Prefeitura de Munique.
Naquele ano, a caneca de um litro custou entre 14,80 e 15,90 euros, conforme a tenda (muenchen.de, 2026).
A festa nasceu em 1810 como celebração do casamento do príncipe herdeiro Luís, futuro rei Luís I da Baviera, com a princesa Teresa de Saxe-Hildburghausen, uma origem aristocrática que hoje ficou reduzida a comer e beber, como conta nosso texto sobre a história e a origem da Oktoberfest.
O que o Wiesn Koks realmente contém?
O nome se traduz como “coca do prado” e faz alusão à Theresienwiese, a esplanada de Munique onde fica o recinto da festa.
A composição é bem menos espetacular do que o rótulo. Lactose, dextrose e mentol, sem nenhum vestígio de tabaco ou de outra substância ativa. Quem o consome descreve uma sensação doce acompanhada de um efeito refrescante e descongestionante.
Essa ardência vem do mentol, que abre as narinas por alguns segundos e explica boa parte de seu atrativo dentro de uma tenda carregada de calor e cheiro de comida.
Do rapé bávaro à tenda de cerveja
A prática não surgiu na Oktoberfest. Vem do rapé, o tabaco moído inalado pelo nariz que durante séculos fez parte da cultura popular do sul da Alemanha.
O Wiesn Koks conserva o gesto e elimina o tabaco. A referência do mercado é o Schneeberg, produzido desde 1923 pela empresa Pöschl Tabak.
A companhia mantém a fórmula sob sigilo estrito, um segredo industrial que a imprensa alemã costuma comparar ao da Coca-Cola. Seu consumo atravessa gerações e funciona como rito de iniciação entre veteranos e novatos.
Por que incomoda a organização?
Nem as autoridades alemãs nem os responsáveis pela festa celebram o costume. O motivo é simples. A olho nu, o consumo de Wiesn Koks é indistinguível do consumo de cocaína, e essa imagem se replica a cada setembro em milhares de fotos e vídeos que saem do recinto.
Em 2025, a polícia flagrou cerca de cem pessoas consumindo cocaína no recinto. Para uma delas, com mais de um grama, isso custou uma multa de 40.000 euros.
Em 2026, a polícia registrou 845 crimes e infrações no recinto, 8% a mais que no ano anterior e em sua maioria relacionados a entorpecentes (ZDFheute, 2026).
A objeção sanitária é mais sólida. Nenhum otorrinolaringologista avaliza a inalação nasal de pós, contenham ou não substâncias ativas. A mucosa nasal não foi feita para receber material particulado de forma repetida, e o fato de o produto ser alimentar não o torna inofensivo por essa via.
O que o regulamento da Oktoberfest proíbe desde 2010 é fumar dentro das tendas, regra estendida a cigarros eletrônicos e vapes. A cannabis é proibida em todo o recinto, com multas que partem de 1.500 euros e podem superar 5.000 em caso de reincidência.
Nenhuma dessas regras alcança os pós de inalar, porque não são fumados nem contêm substâncias controladas. As listas oficiais de objetos e práticas proibidos da Wiesn 2026 não mencionam nem o Schnupftabak nem o Wiesn Koks.
Existe uma ressalva. Cada tenda tem seu próprio direito de admissão e as instruções da equipe de segurança são vinculantes, de modo que um local específico pode pedir que se pare de consumir mesmo sem proibição geral.
A cerveja continua sendo o centro da festa
O pó branco é uma curiosidade dentro de um festival que gira em torno da cerveja. As tendas servem a Festbier especial das seis cervejarias históricas de Munique, um estilo lager de corpo médio e alta drinkability.
A cozinha do recinto acompanha essa linha com frango assado, joelho de porco com chucrute e salsichas brancas, a célebre weisswurst de Munique. Esse prato tem sua própria harmonização clássica com cerveja de trigo, combinação que analisamos nas notas de degustação da Weihenstephaner Hefe Weissbier.
Quem planeja sua primeira visita encontrará as demais dicas práticas em nosso guia sobre o que convém saber antes de ir à Oktoberfest.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. O que é o Wiesn Koks?
É um pó branco composto principalmente de lactose, dextrose e mentol que se aspira pelo nariz durante a Oktoberfest de Munique. Não contém tabaco nem entorpecentes e não é considerado uma droga. Seu nome significa literalmente “coca do prado”, em referência à Theresienwiese, o recinto onde a festa é realizada.
2. Por que é tão parecido com a cocaína?
Pela aparência e pela forma de consumo. Trata-se de um pó branco fino que é inalado pelo nariz e passado de mão em mão entre amigos, uma cena indistinguível do consumo de cocaína a olho nu. Essa confusão é o motivo pelo qual nem as autoridades alemãs nem a organização da Oktoberfest veem a prática com bons olhos.
3. De onde vem esse costume?
Do rapé bávaro, o tabaco moído inalado pelo nariz que teve ampla difusão no sul da Alemanha. O Wiesn Koks repete esse gesto sem o tabaco. A marca mais conhecida é a Schneeberg, produzida desde 1923 pela Pöschl Tabak, com uma fórmula que a empresa guarda com o mesmo zelo que a Coca-Cola dedica à sua.
4. É seguro consumi-lo?
Não existe respaldo médico para inalar pós pelo nariz, contenham ou não substâncias ativas. Os otorrinolaringologistas desaconselham a prática independentemente da composição do produto. O efeito descrito por quem experimenta, uma sensação doce e uma ardência refrescante que desobstrui as narinas, vem do mentol.
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