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Por www.anwandter.cl (texto original da família Anwandter, revisado e ampliado pelo The Beer Times em outubro de 2026)

A tradição cervejeira de Valdivia nasceu na Cervejaria Anwandter, fundada em 1851 por Karl August Wilhelm Paschen Anwandter Fick (1801-1889), um colono alemão que havia chegado ao Chile em 1850 e que, alguns anos antes, já produzia cerveja artesanal em casa para o consumo da família.

Cervejaria Anwandter
Cervejaria Anwandter

Segundo os relatos posteriores de seu filho Richard Anwandter, essa produção caseira teria começado por causa da enorme vontade de sua mãe de voltar a provar uma cerveja, a bebida favorita dos alemães.

Anwandter tinha formação em farmácia, havia estudado a fabricação de cerveja e participado, na Alemanha, da Comissão Cervejeira de Calau, a cidade de Brandemburgo onde viveu antes de emigrar para o Chile.

Foi assim que, com a pequena fortuna que havia trazido da Alemanha, Anwandter colocou mãos à obra para produzir a primeira cerveja de Valdivia, com uma produção inicial de apenas 18 garrafas por mês, suficiente para o consumo da família e dos mais próximos.

Pouco a pouco essa primeira cerveja virou um verdadeiro acontecimento na cidade. Anwandter começou a convidar os amigos colonos para prová-la, e foram eles que o incentivaram a continuar produzindo.

Pouco tempo depois, Anwandter e seus filhos decidiram produzir cerveja para o comércio e oferecê-la em Valdivia com uma estratégia de porta em porta, percorrendo a cidade numa carroça puxada por cavalos. Mais tarde, em 1855, surgiu a já clássica caixinha com 21 garrafas de cerveja.

A expansão da Cervejaria Anwandter

Poucos anos depois, Anwandter começou a importar da Alemanha equipamentos que lhe permitiram aumentar a capacidade de produção. Em 1858, Carlos Anwandter decidiu passar o comando do pequeno negócio aos filhos Germán e Ricardo, que já tinham o título de Mestres Cervejeiros do Reino da Baviera.

Fábrica da Cervejaria Anwandter na Isla Teja, em Valdivia
Cervejaria Anwandter de Valdivia

Sob a nova direção, a cervejaria entrou numa nova fase de desenvolvimento, marcada pelo uso de maquinário e pela abertura de novos mercados após a instalação da primeira linha de máquinas a vapor no processo produtivo. Somou-se a isso a crescente navegação de cabotagem entre os portos de Corral e Valparaíso, que consolidou o tráfego marítimo regular a partir de Valdivia em 1862 e abriu caminho para os mercados do centro e do norte do Chile.

Os irmãos Anwandter construíram novas instalações e enormes armazéns para estocar cevada e passaram a usar um motor a vapor na linha de produção.

Como resultado dessa primeira expansão, a empresa abriu escritórios de vendas em Valparaíso, Concepción e Santiago, além de vários depósitos e agências com representantes locais da Cervejaria Anwandter nos diferentes portos das províncias do Norte.

Em 1873, os irmãos Anwandter transformaram a empresa numa sociedade anônima familiar, batizada de “Anwandter Hermanos”, com um capital de giro de $50.000.

Em 1874 e 1882 a fábrica passou por duas novas ampliações e recebeu modernas máquinas importadas da Alemanha, entre elas duas máquinas a vapor de 50 e 15 HP. Na década de 1890 foram instaladas também câmaras frigoríficas, bombas de ar comprimido e filtros.

O efeito da chegada de novas máquinas e tecnologia fica evidente quando se observa a estatística de produção anual da fábrica. Em 1871 a produção chegava a 700.000 litros.

Por volta de 1879 já alcançava 1,5 milhão de litros. Em 1882, ou seja, durante e depois das primeiras ampliações e modernizações, a produção subiu para 2,5 milhões e em 1884 chegou a 3,8 milhões de litros por ano.

Por volta de 1894 a produção anual de cerveja girava em torno de 8 milhões de litros. Em 1900 a cervejaria já produzia mais de 12 milhões de litros por ano, dos quais uma pequena parte era exportada para vários países da América do Sul, sobretudo para a Bolívia e para as salitreiras do norte do Chile.

Por volta de 1914, depois que a empresa equipou a matriz e suas agências de vendas e depósitos em Valparaíso (1877 e outra representada por P. Nielsen & Co), Santiago (representada por Germán Odhaver) e Concepción com armazéns maiores, fábricas de gelo e máquinas de “envase”, a produção chegou a 25 milhões de litros.

Esse crescimento constante criou uma relação direta com a demanda e o consumo de matérias-primas, entre as quais o lúpulo e a cevada eram as mais importantes. Em 1889 o consumo de lúpulo era de 30 toneladas, em 1898 de 35 toneladas e em 1914 já chegava a 60 toneladas.

Até o fim do século XIX essa matéria-prima precisou ser importada diretamente da Baviera, já que as várias tentativas dos Anwandter de cultivá-la em Valdivia fracassaram. No início da década de 1890, as importações de lúpulo da cervejaria equivaliam a 30% de tudo o que a indústria importava no país.

Diante dessa demanda sempre crescente por lúpulo, a indústria cervejeira acelerou seu cultivo em campos da região central do Chile, cujos solos e clima eram mais adequados e menos limitados que os do sul.

A evolução da produção anual, segundo os registros da própria família, resume melhor que qualquer relato o salto industrial da fábrica em pouco mais de quatro décadas.

AnoProdução anualMarco do período
1871700.000 litrosPrimeira linha a vapor
18791,5 milhão de litrosAmpliação de 1874
18822,5 milhões de litrosSegunda ampliação
18843,8 milhões de litrosMáquinas a vapor de 50 e 15 HP
18948 milhões de litrosCâmaras frigoríficas e filtros
190012 milhões de litrosExportação para a Bolívia e o norte salitreiro
191425 milhões de litrosFábricas de gelo e envase nas agências

Lúpulo e cevada como ingredientes locais

A agricultura local e os campos do centro do país se esforçaram para ampliar as áreas plantadas de lúpulo e cevada.

O papel dos Anwandter nesse processo foi decisivo, já que sua cervejaria absorvia entre 30 e 40% de toda a cevada consumida no Chile.

O gasto anual de cevada na cervejaria dos irmãos Anwandter cresceu a tal ponto que fez aumentar a procura pela cevada de Valdivia em relação ao resto do país.

Rótulos históricos da cervejaria Anwandter
Rótulos da cervejaria Anwandter

Em 1883, a Cervejaria Anwandter dominava 50% do mercado nacional de cerveja, conseguindo reduzir a demanda pela bebida importada, que aos poucos foi substituída pela cerveja chilena (a importação caiu lentamente entre 1883 e 1893 e com mais força a partir de 1894).

A excelência e a alta qualidade da cerveja Anwandter permitiram exportá-la para a Bolívia, o Peru e o Panamá, e até para os países da costa ocidental da América do Sul, o que fez do Chile um concorrente direto das cervejas importadas, especialmente a inglesa.

As cervejas Anwandter foram premiadas em diversas exposições nacionais e internacionais, como o Primeiro Prêmio na Exposição de Agricultura de Santiago (1869) e o Primeiro Lugar na Exposição Internacional de Santiago (1875). Receberam ainda troféus e medalhas nas exposições internacionais de Lima, na Universidade de Paris (1889), em Buenos Aires (1892 e 1900), na América Central (1897) e na Pan-Americana de Buffalo (1901).

Para garantir o abastecimento de lenha para a energia da fábrica, em 1898 os Anwandter compraram uma fazenda de 4.500 hectares perto de Valdivia, entre Estancilla e Cutipay. A propriedade tinha abundantes reservas de água de grande pureza e uma extensa área de mata nativa.

Na parte alta do Fundo El Molino, o engenheiro Juan Antoine foi o responsável por construir uma represa com seus canais e adução, de onde a água era levada por baixo do leito do Rio Cruces e de toda a Isla Teja até a própria fábrica, por meio de tubulações metálicas subterrâneas.

Em 1891, a Cervejaria Anwandter consumia 36.500 m³ de lenha. Em 1893 o consumo chegava a 50.000 m³, o equivalente a 20% do consumo da cidade, embora já em 1890 a fábrica tivesse começado a usar energia elétrica para movimentar suas máquinas, com uma hidroturbina de 900 KW instalada ao lado da fábrica, no rio Valdivia, na Isla Teja.

Em julho de 1889 Carlos Anwandter faleceu e seus filhos (Germán, Carlos, Ricardo, Otto e o genro Teodoro Körner) assumiram a direção da empresa. Graças a essa gestão, por volta de 1898 a fábrica exibia prédios e instalações novas onde trabalhavam cerca de 300 operários com maquinário moderno. No início dos anos 1890 o trabalho era dividido em 4 turnos de 6 horas, o que mantinha a fábrica funcionando sem parar, 24 horas por dia.

Em 1905, para dispor de mais capital e financiar o aumento da capacidade de produção, a empresa foi transformada em sociedade anônima de capital aberto (Sociedad Anónima Compañía Cervecera Valdivia, com Ernesto Frese como presidente do conselho, Carlos Anwandter como vice-presidente, Carlos Menke como secretário, Ricardo Anwandter como gerente e o neto Eric Anwandter como chefe de produção), com um capital inicial de $3,5 milhões, logo elevado para 4 milhões.

José A. Alonso deixou o seguinte relato.

O gerente da fábrica é dom Ricardo Körner, e quem cuida diretamente da produção é dom Eric Anwandter, neto do fundador, broto viçoso da velha cepa, um jovem simpático e inteligente de apenas 26 anos e já à frente de uma empresa tão importante. Tivemos o prazer de encontrar dom Eric com sua rústica roupa de trabalho, exatamente como entendemos o industrial ativo e progressista, despreocupado de si mesmo enquanto dura a lida diária e preocupado apenas com o bom andamento do estabelecimento e com os inúmeros detalhes que a complicada produção da cerveja exige. O senhor Anwandter, jovem de posses, pode dizer com orgulho que é o primeiro operário da fábrica. Dom Eric conhece a fundo o ramo que dirige. Na ânsia de aprender e para completar sua formação, foi à Europa anos atrás e não hesitou, jovem de posses como dissemos, em entrar como simples operário nas mais renomadas cervejarias do Velho Mundo e nas escolas especializadas. Trabalhou nelas com afinco durante dois anos e meio, observou e estudou tudo o que pudesse servir ao seu propósito, inteirando-se pessoalmente dos mais avançados processos de fabricação, e voltou ao Chile instruído e satisfeito para dar um impulso considerável ao grande estabelecimento de Valdivia, dirigido sucessivamente por três gerações de Anwandter. Não é realmente bela essa tradição ininterrupta de trabalho dentro de uma mesma família, de pais para filhos, ao longo de meio século, e não é mais que merecido que a fortuna tenha sempre abrigado sob suas asas protetoras essa fábrica, cujos produtos não só percorrem todo o mercado nacional como há muito tempo cruzaram as fronteiras da República e levaram ao exterior o nome do Chile?

Terminada a nossa visita às diferentes seções da fábrica, dom Eric nos convidou a beber um copo da sua cerveja, uma Pilsener, que já era e continuou sendo a nossa bebida favorita durante toda aquela temporada, sem outro limite além da nossa temperança e da conveniência de não beber a água insalubre que se consome na cidade. É sem dúvida a melhor de todas as cervejas nacionais que conhecemos. E é também a mais popular em Valdivia.

O consumo de matérias-primas registrado nos mesmos documentos da família mostra o peso que a fábrica chegou a ter na agricultura chilena.

AnoCevada (quintais métricos)Lúpulo (toneladas)
18734.243sem dado
188424.000sem dado
1889sem dado30
189840.00035
191480.00060

O fim de uma era cervejeira no Chile

Em 1912 um incêndio de grandes proporções destruiu boa parte das instalações da cervejaria, o que levou à paralisação da fábrica.

Os Anwandter tiveram de fazer um enorme esforço financeiro para reconstruí-la, erguendo um enorme edifício no endereço tradicional da Isla Teja, com 3 blocos de estrutura sólida e equipamentos semelhantes aos das fábricas europeias da época.

Tinha 9 adegas subterrâneas que ocupavam uma área de 5.000 m², com capacidade para armazenar 6 milhões de litros de cerveja. Só a maltaria ocupava um prédio de 5 andares.

Embora os Anwandter tenham concentrado de imediato toda a sua capacidade econômica e de trabalho na reconstrução da fábrica, o incêndio os fez perder muito espaço no competitivo mercado cervejeiro do Chile.

Foi assim que, em 27 de fevereiro de 1916, a família Anwandter decidiu vender o controle acionário à poderosa Compañía Cervecerías Unidas de Santiago (nascida da fusão da fábrica de Andrés Ebner de Santiago, 1872; da Cervecería Gustavo Keller de Concepción, 1874; da Otto Schleyer de Talca, 1884; da fábrica de cerveja e gelo de Augusto Gubler & Cousiño, 1883; da fábrica de garrafas de Carlos Cousiño de Lota; e da Fábrica Nacional de Cerveza de Limache, 1891, formada pela fusão da Plagemann & Cía de Valparaíso com a Hoffmann & Ribbeck), que ao longo da década anterior havia se tornado, pela compra de cervejarias em todo o país, a principal empresa do mercado.

A Cervejaria Anwandter foi absorvida pela CCU e desapareceu para sempre. A CCU manteve as instalações e o processo produtivo, enquanto fortalecia e consolidava suas filiais no resto do país, até que em 22 de maio de 1960 o megaterremoto de Valdivia a destruiu completamente.

O que resta hoje da Anwandter em Valdivia?

Da fábrica da Isla Teja nada ficou de pé depois do terremoto de 1960, o mais forte já registrado na história, e a CCU não reconstruiu a planta.

A tradição, porém, sobreviveu. Em 1991, três décadas depois do terremoto, Armin Kunstmann e Patricia Ramos começaram a fazer cerveja em casa, e em 1997 levaram a produção para Torobayo, onde abriram a fábrica e o restaurante que hoje recebem milhares de visitantes por ano.

Em 2002 a Kunstmann se associou à mesma CCU que havia comprado a Anwandter em 1916, e assim a cerveja de Valdivia voltou a ser distribuída em todo o Chile sob o guarda-chuva da empresa que a havia absorvido. Desde então a cidade reivindica o título de capital cervejeira do sul, como explica o documentário lançado no Teatro Cervantes, e a Kunstmann e o Inacap formam hoje cervejeiros profissionais a poucos quilômetros de onde Carlos Anwandter engarrafou suas primeiras 18 garrafas.

O sobrenome Anwandter continua presente em Valdivia por outro caminho. Carlos Anwandter fundou em 1858 o Instituto Alemán, que leva seu nome e segue em funcionamento, e a casa da família faz parte do patrimônio da Isla Teja ao lado do Museu Histórico e Antropológico da Universidad Austral.

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Quem foi Carlos Anwandter?

Karl Anwandter (1801-1889) foi um farmacêutico de Calau, em Brandemburgo, que chegou a Valdivia em 1850 com a colonização alemã promovida por Vicente Pérez Rosales. Em 1851 fundou na Isla Teja a primeira cervejaria de Valdivia e em 1858 o Instituto Alemán que leva seu nome.

2. Quando a Cervejaria Anwandter foi fundada e quanto chegou a produzir?

Foi fundada em 1851 com 18 garrafas por mês para consumo familiar. Em 1871 produzia 700.000 litros por ano, em 1900 passou dos 12 milhões e em 1914 chegou a 25 milhões de litros, com exportações para a Bolívia, o Peru e as salitreiras do norte do Chile.

3. Por que a Cervejaria Anwandter desapareceu?

Um incêndio destruiu boa parte da fábrica em 1912 e a reconstrução a fez perder mercado. Em 27 de fevereiro de 1916 a família vendeu o controle acionário à Compañía Cervecerías Unidas (CCU), que manteve a fábrica funcionando até que o terremoto de 22 de maio de 1960 a destruiu por completo.

4. Qual é a relação entre a Anwandter e a Kunstmann?

Não há relação familiar nem empresarial direta. A Kunstmann nasceu em 1991 como cervejaria caseira em Valdivia e se associou à CCU em 2002. É a herdeira da tradição cervejeira de Valdivia iniciada pela Anwandter em 1851, e por isso a cidade se apresenta hoje como capital cervejeira do sul.

5. Dá para visitar algo ligado à Anwandter em Valdivia?

A fábrica não existe mais, mas na Isla Teja estão preservados a casa Anwandter e o Museu Histórico e Antropológico da Universidad Austral, que conta a história da colonização alemã. A poucos quilômetros, em Torobayo, a Kunstmann oferece visitas à sua fábrica e restaurante.

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Author Carlos Uhart M.

Fundador e diretor da The Beer Times™. Certified Beer Server Cicerone©, Beer Judge BJCP e sommelier de cerveja. Autor de 'Guia Prático para Degustar Cerveja', 'Culinária e Coquetelaria com Cerveja' e outros quatro livros sobre harmonização e cultura cervejeira.