This post is also available in:
Nos primórdios da história não existiam hierarquias nem propriedade privada — apenas uma vasta savana a percorrer e um novo mundo a descobrir com recursos naturais aparentemente inesgotáveis; eram os primórdios do que hoje entendemos por humanidade.

As comunidades eram fraternais; as relações, eróticas, abertas, amistosas e desinibidas — assim foram os tempos dos primeiros homo sapiens a pisar o planeta.
É possível que em muitos acontecimentos importantes da história a cerveja tenha sido apenas uma simples espectadora; no entanto, também é fascinante ver por que foi tão importante em outros momentos, chegando até a modificar seu rumo.
1. Vantagens de adaptação
Segundo a teoria da evolução de Darwin, a diferença entre os primeiros proto-humanos e o restante dos mamíferos é que, há dez milhões de anos, um ancestral comum com os gorilas e chimpanzés sofreu uma mutação na enzima ADH4 que lhe permitiu digerir o álcool sem maiores problemas.
Isso representou uma enorme vantagem adaptativa, já que a fermentação de frutos caídos das árvores proporcionou aos primeiros humanos uma maior quantidade de nutrientes — e, por que não, um pouco de diversão.

Posteriormente, o domínio do fogo ofereceu ao ser humano a possibilidade de controlar a maceração do grão e, graças a isso, desenvolver processos para elaborar álcool.
Foi então que começamos a prestar atenção ao grão e, consequentemente, ocorreu a sedentarização — impulsionada pela necessidade de cultivar mais cereais para aumentar a produção de cerveja.
Segundo os estudos realizados na escavação do primeiro grande assentamento conhecido, Göbekli Tepe, na Turquia, o ser humano já era capaz de fermentar cerveja há 11.600 anos.
Em todo o mundo, as sociedades agrícolas tiveram piores condições de saúde do que os caçadores-coletores: falta de saneamento, de higiene, doenças, pouca atividade física, guerras. E apesar de tudo, o ser humano não abandonou seus assentamentos.
2. Sedentarismo e monogamia
Dessa forma, o homem se entrincheirou em sua casa, construiu depósitos de grão e inventou a propriedade privada — incluindo nela sua esposa e filhos, que eram necessários para o cultivo do campo e a defesa do território. Hierarquizou a sociedade e criou o conceito de família, enquanto continuava bebendo cerveja.

E, claro, tudo isso teve repercussão na sexualidade — principalmente na instauração da monogamia.
Segundo os estudos do historiador Rod Phillips:
O ser humano é expulso do paraíso neolítico em que não existe pecado — onde se vive felizmente sem propriedade privada, sem vergonha do corpo humano, sem problemas alimentares e em um sistema social solidário, desinteressado e fraternal — tudo isso perdido em nome do conhecimento, da civilização, do egocentrismo, do materialismo, do pecado, da propriedade privada e da guerra.
3. De nômades a agricultores
Só quando as sociedades nômades decidiram cultivar grão é que tudo mudou — uma revolução comercial e alimentar estava prestes a acontecer.

A cerveja desempenhou um papel muito importante nesse processo histórico, pois a cevada era utilizada como alimento essencial na dieta dos primeiros habitantes sedentários do mundo.
4. O Código de Hamurabi
Manter a qualidade da cerveja sempre foi de suma importância para a humanidade, e o Código de Hamurabi é prova disso. Nessa grande pedra que contém os princípios do direito, da ordem e das penas da antiga Mesopotâmia, havia uma disposição que determinava que a cerveja devia ser regulada por lei.

Eram tempos difíceis e extremos, e civilizações como os babilônios seguiam à risca o Código de Hamurabi — razão pela qual as disputas para elaborar a melhor cerveja eram frequentes.
No entanto, se um mestre cervejeiro não fazia bem seu trabalho, ou se o sabor, o aroma e a consistência da cerveja não convenciam os consumidores, o castigo era afogá-lo em sua própria bebida.
Como era de se esperar, havia muitos degustadores — mas pouquíssimos se atreviam a elaborar cerveja.
5. Louis Pasteur e o fermento
Na história da cerveja, não é preciso remontar a séculos de evolução física e social, nem estabelecer leis de qualidade extremas — Louis Pasteur é um exemplo claro.

Pasteur foi um microbiologista francês que descobriu o papel do fermento na fermentação e que também projetou o processo denominado pasteurização — um procedimento que consiste em submeter um líquido a 80°C para que o calor elimine a maioria das bactérias e microrganismos nocivos ao consumo humano. Comum hoje no leite, foi testado pela primeira vez em uma cerveja.
6. A campanha presidencial de Roosevelt
A cerveja também foi utilizada para fins políticos. No início dos anos 1930 nos Estados Unidos, a famosa “Lei Seca” vivia momentos turbulentos, prestes a desaparecer — em grande parte graças à campanha presidencial de Franklin Delano Roosevelt.

Roosevelt, em sua busca por erguer um país de sua grande queda econômica em 1929, prometeu eliminar essa norma, para que os cidadãos americanos amantes da cerveja não recorressem à clandestinidade.
Como vimos, os momentos em que a cerveja marcou o rumo da humanidade são incontáveis — científicos e culturais, uns mais importantes que outros, mas todos influenciando de forma muito significativa nossa evolução como sociedade.
No se encontraron productos.
A história da cerveja em 10 curiosidades
A história da cerveja tem milhares de anos e hoje é a terceira bebida mais popular do mundo — atrás da água e do chá — e a bebida alcoólica mais amplamente consumida.
Continue lendo para ter uma visão resumida de 10 fatos históricos sobre a fabricação de cerveja que farão sua bebida ter um sabor ainda melhor!
1. A importância das mulheres
Só com a descoberta do processo de malteação — supostamente pelos mesopotâmios entre 2000 e 3000 a.C. — as cervejas começaram a conter quantidades significativas de álcool.

Naquela época, elaborar cerveja era uma profissão nobre nas mãos de mulheres da elite ou de sacerdotes. Alguns tipos de cerveja eram inclusive reservados a cerimônias religiosas.
2. Pão de cerveja
As primeiras cervejas documentadas remontam a há 5.000 anos, embora possam ter tido um sabor bem diferente das cervejas que conhecemos hoje.
O processo de elaboração de cerveja utilizado pelos sumérios na Mesopotâmia resultou no que hoje chamamos de pão de cerveja: pão meio assado embebido em água para criar uma bebida fermentada, frequentemente aromatizada com mel e ervas.
Como tinha os mesmos ingredientes básicos que o pão, era considerado igualmente nutritivo. Alguns achados de cerâmica antiga sugerem que o processo de elaboração de cerveja remonta a ainda mais tempo — cerca de 7.000 ou mais anos atrás.
3. Antigo Egito
No Antigo Egito, a cerveja fazia parte da dieta diária. As tumbas às vezes revelam ilustrações em pedra e madeira do processo de elaboração.

As análises concluíram que os egípcios conheciam diferentes tipos de cerveja pela utilização de diferentes tipos de cereais. Além disso, a cerveja era frequentemente empregada em medicamentos e servia a fins religiosos.
4. Cerveja e chá
No século XVIII, durante o Iluminismo, a Europa era uma sociedade anti-álcool. Com o auge do café e do chá, a cerveja sofreu uma leve queda.
Nos EUA, essa devastação foi muito maior devido à Proibição de 1920–1933, quando o consumo de bebidas alcoólicas era ilegal — seguido pela Grande Depressão.
As cervejarias americanas tiveram muitas dificuldades para se recuperar desses anos difíceis.
5. Alemanha
Os romanos, que preferiam o vinho, levaram o processo de elaboração de cerveja mais para o norte.
Os alemães foram os únicos que encontraram uma forma de deixar de lado o processo de preparo do pão e elaboraram cerveja a partir de cereais germinados e secos, que depois fermentavam.
6. Idade Média
Na Europa medieval, o processo de elaboração de cerveja estava bastante reservado aos monges — a parcela mais instruída da sociedade.

No entanto, a cerveja era uma bebida típica, consumida por todas as classes sociais pelo seu valor nutritivo e porque costumava ser muito mais segura do que beber água contaminada.
7. Industrialização
A Revolução Industrial teve um grande impacto na produção de cerveja. Com a invenção da máquina a vapor em 1765, a industrialização chegou à cerveja.
A incorporação do termômetro (1760) e do densímetro (1770) tornou o processo de elaboração de cerveja cada vez mais eficiente, transformando a cerveja em um produto de massa.
8. Cerveja em baldes
A primeira garrafa de cerveja foi vendida em 1850. Antes disso, as pessoas levavam baldes chamados “growlers” às tabernas para enchê-los. Alguns bares cervejeiros ainda mantêm essa antiga tradição.
9. Marketing cervejeiro
No século XX, a publicidade e o marketing desempenharam um papel significativo na crescente popularidade de diferentes tipos de cerveja.
Em vendas e leilões de acessórios de cervejaria, sempre se encontram muitos cartazes publicitários que definem essa época — desde letreiros de cervejarias dos anos 1930 até típicos espelhos publicitários dos anos 1980.
10. Weihenstephan
A cervejaria mais antiga do mundo produz cerveja há quase 1.000 anos. A Bayerische Staatsbrauerei Weihenstephan fica na mesma colina Weihenstephan, na Alemanha, onde a cerveja começou a ser elaborada em 1040!
Sua cerveja não tem de repente um aroma melhor e sabores mais intensos? A história da cerveja é justamente tão fascinante quanto a do vinho.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual mutação genética permitiu aos ancestrais humanos consumir álcool e que vantagem isso trouxe?
Há dez milhões de anos, um ancestral comum com os gorilas e chimpanzés sofreu uma mutação na enzima ADH4 que lhe permitiu digerir o álcool. Isso conferiu uma vantagem adaptativa ao possibilitar a obtenção de nutrientes adicionais a partir de frutos fermentados caídos das árvores.
2. Qual é a relação entre a cerveja e a passagem do nomadismo ao sedentarismo?
A necessidade de cultivar mais cereais para aumentar a produção de cerveja, somada ao controle da maceração do grão graças ao domínio do fogo, impulsionou a sedentarização do ser humano e a criação dos primeiros assentamentos agrícolas há cerca de 11.600 anos.
3. Como o Código de Hamurabi punia os mestres cervejeiros que faziam um mau trabalho?
Na antiga Mesopotâmia, se uma cerveja não convencia os consumidores quanto ao sabor, aroma ou consistência, a lei determinava que o mestre cervejeiro responsável fosse afogado em sua própria bebida.
4. Qual foi a descoberta de Louis Pasteur em relação à cerveja e que processo ele criou?
Louis Pasteur descobriu o papel fundamental do fermento na fermentação e criou a pasteurização — um procedimento que elimina microrganismos nocivos submetendo o líquido a 80°C — testado pela primeira vez em uma cerveja.
5. O que era o “pão de cerveja” elaborado pelos sumérios há milhares de anos?
Era um método antigo de elaboração que consistia em pão meio assado embebido em água para produzir uma bebida fermentada, frequentemente aromatizada com mel e ervas, considerada um alimento muito nutritivo.
Recomendamos
- Por que algumas pessoas ficam bêbadas mais rápido do que outras?
- A melhor seleção de receitas de medicina natural com cerveja, lúpulo e cevada

