This post is also available in: Español English Français

Por Chuck Cook

As coisas mudaram muito em um mundo dominado majoritariamente por homens, como foram as cervejarias das abadias trapistas nas últimas décadas.

Anne-Françoise Pypaert
Anne-Françoise Pypaert – © DrinkBelgianBeer.com

Um número significativo de mulheres trabalha nesses lugares sagrados, nas áreas de laboratório, marketing e principalmente controle de qualidade.

Essa presença marcante no controle de qualidade talvez se deva à crença, bastante difundida na Bélgica e em outros lugares, de que as mulheres têm olfato e paladar mais sensíveis e apurados que os homens e, portanto, estariam mais preparadas para essas funções.

Herdeira por mérito próprio

Mas no topo do organograma nunca havia existido uma mulher no comando como mestre cervejeira em nenhuma cervejaria trapista.

Isso até outubro de 2013, quando Jean-Marie Rock, o célebre mestre cervejeiro da Brasserie d’Orval, na l’Abbaye Notre Dame d’Orval, se aposentou.

Jean-Marie Rock & Anne-Françoise Pypaert
Jean-Marie Rock & Anne-Françoise Pypaert – © BeerTourism.com

Nessa altura, porém, sua substituta já tinha sido nomeada alguns meses antes. Era Anne-Françoise Pypaert, diretora de controle de qualidade desde 1995 e a segunda no comando depois de Jean-Marie.

Na verdade, Anne-Françoise era a única mulher que trabalhava em Orval quando foi contratada, no fim de 1992.

Em 2014, quando a entrevista original foi publicada, eram oito mulheres no total, uma no laboratório, uma em pesquisa e desenvolvimento, quatro no escritório administrativo, uma na queijaria e uma como mestre cervejeira. Oito em um total de 37 funcionários.

Apaixonada por cerveja

Quando perguntamos a Anne-Françoise se ela já tinha pensado na produção de cerveja como carreira ao começar a estudar Bioquímica no fim da década de 1980, ela responde que não achava isso possível, já que a produção de cerveja era um mundo muito dominado pelos homens naquela época.

No entanto, depois de alguns anos, ainda enquanto estudava para me formar, comecei a pensar que seria possível encontrar trabalho em uma cervejaria, porque as coisas estavam mudando naquele momento. Por isso, me concentrei em me candidatar a vagas em cervejarias e fui contratada aqui.

Ela nunca trabalhou em outro lugar desde que se formou na universidade, o que é bastante notável hoje em dia.

Talvez nem tão notável assim, considerando que as cervejarias trapistas são reconhecidas como bons lugares para trabalhar, com salários e benefícios generosos. Os monges trapistas cuidam bem de seus funcionários.

Surpreendentemente, Anne-Françoise só provou a cerveja Orval pela primeira vez poucos dias antes da sua entrevista inicial na cervejaria, e lembra disso com um sorriso.

Gostei desde o início, porque sempre fui uma amante de cerveja. Eu digo a todo mundo que as mulheres também apreciam a Orval e outras cervejas amargas. Gosto de combater a ideia de que as mulheres só gostam de cervejas doces.

Formação e responsabilidades em Orval

Anne-Françoise estudou no Institut Meurice, em Bruxelas, que hoje faz parte da Haute École Lucia de Brouckère.

Abbaye Notre-Dame d'Orval
l’ Abbaye Notre Dame d’ Orval – © DrinkBelgianBeer.com

No entanto, foi o aprendizado no dia a dia ao lado de Jean-Marie Rock, por mais de vinte anos, que moldou seu talento como cervejeira.

Obviamente não sou o Jean-Marie. Embora o método de produção seja quase o mesmo, já que ele foi meu mentor, temos estilos de gestão muito diferentes.

Orgulho e reconhecimento

Como é ser a primeira mestre cervejeira de uma cervejaria trapista? Você se orgulha dessa conquista? A resposta de Anne-Françoise é breve.

Sim, tenho orgulho, com certeza. Estou muito feliz.

Como se tudo isso não bastasse, Anne-Françoise também era diretora de produção da queijaria de Orval.

Em 2014, Orval produzia três queijos, todos no estilo Port Salut, um jovem, um maturado e outro lavado com cerveja Orval.

Na época, os queijos eram vendidos apenas na Bélgica, na França e na Holanda.

Orval sob sua direção

Dez anos depois de assumir, Anne-Françoise continuava à frente da produção. Em novembro de 2023, a Hop Culture a apresentava como mestre cervejeira de Orval, cargo que ocupava havia mais de uma década (Hop Culture, 2023).

Nesse período, a cervejaria mudou de escala. Passou de 32.000 hectolitros no ano 2000 para cerca de 80.000 e inaugurou uma nova sala de fermentação e uma linha de envase de 40.000 garrafas por hora, um projeto que levou cinco anos para ser concluído.

Hoje, a própria abadia calcula sua produção em 25 milhões de garrafas por ano, mais de 88% destinadas ao mercado belga (Brasserie d’Orval, 2026).

A receita da Orval quase não mudou em nove décadas. Um dos poucos ajustes feitos sob seu comando foi estender a fermentação de cinco para seis dias.

A Orval Vert, a cerveja de 4,5% produzida para os monges e servida apenas na abadia, também foi revista quando o restaurante de Orval foi reconstruído, ganhando um novo dry hopping com Strisselspalt e Mosaic.

Para quem chega pela primeira vez à cerveja que ela comanda, o conselho é direto.

A primeira Orval é muito difícil. Você tem que provar a segunda ou a terceira.

Em 2016, seu nome atravessou o Atlântico com a Ann-Françoise, uma Belgian strong dark ale de 9,5% com brotos de abeto, grãos do paraíso e lúpulo Strisselspalt, produzida pela New Belgium em colaboração com Orval (Beer Street Journal, 2016).

Perguntas frequentes (FAQ)

1. Quem é Anne-Françoise Pypaert?

É uma bioquímica belga que, em outubro de 2013, se tornou a primeira mulher a comandar como mestre cervejeira uma cervejaria trapista, a Brasserie d’Orval. Entrou em Orval no fim de 1992, quando era a única mulher da equipe, e foi diretora de controle de qualidade desde 1995 até suceder Jean-Marie Rock.

2. Ela continua sendo a mestre cervejeira de Orval?

A fonte mais recente que a identifica no cargo é uma reportagem da Hop Culture de novembro de 2023, que a apresentava como mestre cervejeira de Orval havia mais de uma década. O site oficial da abadia não divulga o nome de seus mestres cervejeiros atuais.

3. Os monges de Orval produzem a cerveja?

Não. A Brasserie d’Orval foi fundada em 1931 para financiar a reconstrução da abadia e, desde o início, contratou trabalhadores leigos, a começar pelo seu primeiro mestre cervejeiro, o bávaro Martin Pappenheimer. A comunidade monástica orienta a atividade da cervejaria e destina a receita a obras sociais e à manutenção dos edifícios, condições exigidas pelo selo Authentic Trappist Product.

4. O que é a Orval Vert?

É uma versão com 4,5% de álcool que a cervejaria produz para os monges, contra os 6,2% da Orval vendida no mundo todo. É servida apenas na pressão, na própria abadia, e engarrafada para quem vai a Orval em retiro.

5. Quanta cerveja a Orval produz?

Segundo a própria abadia, 25 milhões de garrafas por ano em 2026, das quais mais de 88% são vendidas na Bélgica. No ano 2000 produzia 32.000 hectolitros, número que a Hop Culture situava em torno de 80.000 em 2023.

Recomendamos

Avatar photo
Author Carlos Uhart M.

Fundador e diretor da The Beer Times™. Certified Beer Server Cicerone©, Beer Judge BJCP e sommelier de cerveja. Autor de 'Guia Prático para Degustar Cerveja', 'Culinária e Coquetelaria com Cerveja' e outros quatro livros sobre harmonização e cultura cervejeira.